FADIGA. Entrevista com Dr Cyro Masci




Entrevista com Dr Cyro Masci na Radio Brasil (Campinas) sobre Fadiga e Cansaço Prolongado

Para ouvir a entrevista, clique na imagem abaixo do Soundcloud, ou leia a transcrição logo abaixo



TRANSCRIÇÃO:

Entrevistadora: E hoje aqui, no manhã Brasil, eu vou conversar com o Doutor Cyro Masci que é médico psiquiatra e clínico geral e vai nos ajudar a entender um pouquinho mais a respeito dessa palavrinha cansaço. Como combater aquele cansaço, aquela fadiga, aquela exaustão que muitas vezes atrapalha a nossa qualidade de vida. Doutor Cyro Masci, bom dia. Cyro Masci: Bom dia. Entrevistadora: Tudo bem, doutor? Cyro Masci: Tudo ótimo. Entrevistadora: Olha, doutor, essa palavrinha cansaço dá trabalho para muita gente. Cyro Masci: Muito. O cansaço, a queixa de fadiga chega a ocupar 70, 80% nas consultas de qualquer médico. As pessoas têm essa queixa quase como uma norma. Dificilmente uma doença orgânica não seja seguida de cansaço. Quando a gente aborda o cansaço, a fadiga prolongada, a gente, em primeiro lugar, sempre tem que descartar doenças orgânicas como doenças do coração, como doenças das glândulas, diabetes, por exemplo, neurológicas. Várias doenças orgânicas podem dar origem a esse cansaço. Agora, descartadas essas origens, vamos chamar assim, mais claras, mais óbvias, nós temos que começar a pensar de uma maneira mais global no aparecimento do cansaço. Entrevistadora: E porque nós estamos aí em um momento, doutor, que muita gente, a maioria das pessoas que eu converso, a pessoa diz assim: "nossa, como eu estou cansada. Eu preciso de paz, preciso de férias." Isso é um esgotamento mental, o Brasil está passando por uma fase, vamos dizer assim? Porque todo mundo sempre reclama que está muito cansado, “não tenho tempo, não consigo descansar”. Porque essa queixa? Cyro Masci: É um esgotamento, para usar suas palavras, físico e mental. Vamos começar pelo físico. Nós somos inundados de poluição de todos os tipos: poluição magnética, poluição química, poluição bacteriológica. Então, o nosso organismo, ele tem mecanismos para eliminar esses agressores, mas se eles forem de modo excessivo, eles sobrecarregam os nossos sistemas de eliminação. Entrevistadora: Entendi. Cyro Masci: Essa sobrecarga no sistema de eliminação provoca uma queda geral, vamos chamar assim, da energia do corpo que passa a se dedicar muito aos agressores, passa a se dedicar muito às defesas do organismo e pouco à construção de coisas boas. Nós estamos realmente inundados de estímulos nocivos, por exemplo, os estímulos nocivos de excesso de informação. Temos que selecionar o tipo de informação que chega até nós. Nós temos que selecionar também as pessoas que nos rodeiam, que tipo de assunto que estão sendo veiculados. Nosso cérebro, ele foi formatado para dar luz, para focalizar aspectos negativos da nossa vida.

Sempre foi importante na história da humanidade prestar muita atenção em coisas ruins, coisas potencialmente perigosas. Então, como você conquista a atenção de uma pessoa? Veiculando, noticiando alguma coisa potencialmente perigosa. Os nossos amigos, sem nenhuma maldade, fazem isso o tempo todo. "Nossa, você viu a última catástrofe?" Você também abre os jornais, você liga a televisão e veículos de comunicação vão tentar captar sua atenção não para coisas boas, positivas da vida, que o teu cérebro automaticamente não dá muita bola para isso. Ele vai tentar capturar sua atenção com aspectos negativos. Essa sobrecarga de pensamentos tóxicos, notícias tóxicas, perdão, [se torna] muito cansaço. Entrevistadora: Doutor... Cyro Masci: Além disso, nós temos a influência do nosso modo de sentir, pensar e agir com um país que está claramente em crise. Entrevistadora: Claro. Cyro Masci: Nós temos que ter [presente] o estado de atenção, o estado de alerta constante que as notícias reais vão chegando e nós colocam naquela posição: "e agora, o que eu faço?" Esse excesso de atenção também gera cansaço. Entrevistadora: Olha, eu tenho vários ouvintes, graças a Deus, participando conosco aqui e muitas pessoas, doutor, dizendo... Eu tenho até uma ouvinte, Maria Zilda, ela me pediu para te fazer. A Maria Zilda, não, perdão. A Celine. Ela disse que ela está se sentindo muito cansada. Ela cansa de ir ao supermercado, ela diz que ela sai de casa e ela volta, ela já precisa se jogar no sofá. Ela fala: "eu não consigo, eu não tenho ânimo." E ninguém consegue explicar o que ela tem. Isso pode ser um quadro de depressão também? Cyro Masci: Sim, pode. O primeiro passo é detectar se não existe influência orgânica, insisto. Um escritor brasileiro muito famoso, Monteiro Lobato, ele criou um personagem chamado Jeca Tatu, em que ele zombava do caráter preguiçoso do brasileiro. Monteiro Lobato depois descobriu que a figura do Jeca Tatu, na verdade, ele estava parasitado por vermes no intestino, que isso estava roubando sua energia. Ele não tinha energia para nada. Isso já chama a atenção que nós sempre precisamos verificar e verificar exaustivamente se não existem doenças, até muito simples, como parasitas intestinais que possam estar roubando ferro que é imprescindível para a oxigenação dos tecidos. Esse é o primeiro ponto. Entrevistadora: Tá. Cyro Masci: O segundo ponto, depois de verificar exaustivamente, completamente se não existe este motivo, é começar a pensar no nosso modo de vida, começar a pensar naquilo que nos aconteceu e está acontecendo, nas coisas que podem ter acontecido, um excesso de problemas, um excesso de estresses, um excesso de estímulos pode realmente levar os nossos mecanismos de adaptação aos desafios da vida que são naturais, que são fisiológicos a um estado de quase exaustão e o nosso organismo já não consegue mais se recuperar com tanta facilidade. Entrevistadora: É verdade. Cyro Masci: O remédio para isso é reformular as experiências do passado com o auxílio ou não de um profissional e procurar ter repouso. O repouso, ele é relativamente simples. Nós devemos cuidar muito bem, por exemplo, de um terço aproximadamente da nossa vida acontece durante o sono. Entrevistadora: Eu ia perguntar isso agora, ia perguntar isso agora. O senhor acertou, vamos lá. Cyro Masci: Adivinhei. O sono, ele é absurdamente fundamental. Ele não é uma coisa passiva, nós não passamos um terço das nossas vidas desligados inutilmente. Não, o sono é um processo muito ativo. É durante o sono que o nosso corpo se reestabelece. Muitas pessoas, especialmente as mulheres, que se queixam de dores migratórias, uma dor que uma hora está no joelho, outra hora está na coxa, outra hora está nas costas, cada hora está doendo em algum lugar, precisam se perguntar como está sua qualidade de sono. Se eu não tiver uma fase do sono bem adequada, nós chamamos de fase delta, é a fase de relaxamento muscular profundo, eu não vou ter possibilidade de eliminação, por exemplo, de uma substância chamada ácido lático que provoca dores musculares. Então, o sono é absurdamente fundamental. É também durante o sono, fases do nosso sono, que nós reestruturamos o nosso pensamento, que nós equilibramos as emoções durante o dia para que no dia seguinte haja uma oportunidade de seguir em frente. Insisto: o sono é absolutamente fundamental. Uma boa qualidade de sono é fundamental. Entrevistadora: E quantas pessoas não sofrem com distúrbios do sono, insônia por conta de problemas, que foi o que o senhor disse: precisamos resolver algumas situações. Porque, doutor, é muito fácil ou muito comum nós encontrarmos pessoas que estão com aquela tensão na cervical e parece que carrega o mundo nas costas. E você fala para a pessoa: "mas, calma." E a pessoa fala: "calma, mas como eu vou ficar calma, nada dá certo." E aquilo, o jeito que a pessoa fala, o stress que a pessoa vive não tem corpo, não tem estrutura que aguente isso. Cyro Masci: Perfeito. Existem algumas dicas ou alguns macetes para tentar contornar esse problema. Alguns deles até são contra intuitivos. Por exemplo, nós pensamos que quanto mais nós ficarmos refletindo, nós ficamos pensando sobre um determinado problema, mais fácil vai ser achar a sua solução. Entrevistadora: Sim. Cyro Masci: Olha, não é bem assim. Nós precisamos dar chance para nosso inconsciente funcione para achar soluções e também para nosso organismo se restaure. Uma dica, um macete fácil é o seguinte: sempre que você se pegar pensando repetidamente em um problema da sua vida, para, interrompe. Fala: "olha, o problema é o problema, eu sou eu. Problema, você quer falar comigo, marque horário". Anote em uma agendinha ou no seu celular aquele problema e fala: "Hoje às 8h15 da noite, às 20h15, nós vamos conversar." E vai anotando os problemas sem permitir que ele tome conta da sua vida. Quando chegar às 8h30, 8h15 da noite, você vai pensar àquele respeito. Normalmente o problema reduziu a dimensão e você ganhou uma perspectiva, você ganhou um modo de olhar esse problema mais sábio aonde as soluções aparecem com mais facilidade. Então, não se trata de dizer: "olha, não pense nos problemas ou ignore os problemas." Não. Pense neles, mas de uma maneira sábia. Focalize um horário durante o dia para se preocupar com seus problemas e não quando ele aparece. Sempre que ele aparece, você entra em um modo automático de alerta, de atenção, de perigo. E que é muito ruim para a recuperação do organismo. A primeira dica é essa: marque um horário para pensar nos seus problemas. Entrevistadora: OK, vou anotar aqui. Vou marcar o horário então, tá bom? (Risos) Cyro Masci: Perfeito. Essa dica... Eu tenho três décadas de experiência em medicina. Eu insisto muito nessa estratégia e os resultados são muito bons para quem se dispõe a fazer. A outra estratégia bem interessante é organizar um pouquinho mais o seu dia. A melhor maneira de a gente organizar o tempo, de um modo bem simples, não é ficar assim: "ah, eu preciso ligar para [tal coisa]. Ah, eu preciso fazer tal coisa. Ixi, eu me esqueci de comprar o arroz." Não. Anota em uma agendinha tudo o que você tem que fazer durante o dia e vai ticando, conforme a coisa vai realizando. Então, você permite que seu corpo não fique em alerta tentando se recordar de coisas importantes. O truque todo é esse, a chave é essa: não permitir que o organismo fique em alerta. A terceira estratégia que eu diria que ela é, ela beira o mágica de tão maravilhosa que é, é extraordinariamente simples. Os nossos mecanismos de alarme, de atenção, eles podem ser pelo menos parcialmente desativados com uma medida extraordinariamente fácil que eu vou falar agora, claro: respiração. Você respira a cada hora, hora e meia, durante um minuto, um minuto e meio, não precisa mais que isso de maneira calma e pausada. Você inspira pelo nariz, segura um pouquinho o ar e solta novamente pelo nariz ou entre os lábios semi fechados. Mas qual é o truque? Tem um truque, tem um macete. O tempo da expiração, o tempo em que o ar sai do organismo é sempre o dobro do tempo que entrou. Entrevistadora: Nossa. Cyro Masci: Se quiser contar os segundos antes, tudo bem, mas mais ou menos você já deve ter essa impressão. O ar sai sempre no dobro do tempo que entrou. Existem trabalhos em grandes universidades do mundo que mostram que esse tipo de respiração equivale a um calmante químico. Ele é muito fácil de ser feito. E para você não esquecer, coloca no alarme, escreve no papel "respirar a cada hora, hora e meia, durante um minuto, um minuto e meio, inspirando lentamente, segurando o ar um pouquinho e soltando o ar no dobro do tempo que entrou". Tá fácil? Entrevistadora: Tá. Eu estou adorando, porque respiração é uma coisa muito importante e muita gente não... É engraçado que a gente vive tanto no automático, não é, doutor, que, às vezes, a pessoa fala: "nossa, estou respirando". Mas nem sabe o que está acontecendo mais. Cyro Masci: Nós vivemos grande parte da nossa vida no modo automático, para usar sua excelente expressão. Nós precisamos interromper esse modo automático e fazer o corpo trabalhar para a gente. Entrevistadora: Com certeza. Cyro Masci: O padrão do corpo é resolver problema, é procurar problema. E nós não temos mais tantos problemas de vida ou morte como tinham os nossos ancestrais que viviam, por exemplo, lá na savana africana. Mas o nosso corpo ainda reage da mesma maneira como se a gente estivesse cercada de leões, de feras perigosíssimas, que colocassem em risco a nossa vida física. Entrevistadora: É verdade. Cyro Masci: Hoje os nossos problemas estão muito mais relacionados com as emoções. E aí vem mais um macetizinho: grande parte dos sintomas de depressão, voltando aos sintomas de depressão que gera realmente cansaço, a diferença entre aquilo que a gente quer na vida e as possibilidades que nós temos de alcançar. Os nossos objetivos de vida, eles devem existir levando em consideração aquilo que faz sentido maior para sua própria vida. Nós, técnicos, chamamos de motivação intrínseca. Por exemplo, eu posso pensar em ganhar dinheiro, quero ganhar mais dinheiro. Quem não quer? Mas por que é que eu quero ganhar mais dinheiro? Se eu falar: "Eu quero ganhar mais dinheiro porque eu quero ter um carro mais bonito". Eu entro em uma comparação com as pessoas que estão ao meu redor. Alguém sempre vai ter um carro mais bonito do que o meu. Alguém sempre vai conseguir um carro mais moderno do que o meu. Entrevistadora: É verdade. Cyro Masci: Então, isso nós chamamos de, nesse exemplo, estou dando um exemplo de motivação extrínseca. "Eu quero ganhar dinheiro motivado pelos outros, pela sociedade e não por mim". Se eu pensar: "Eu quero ganhar dinheiro, porque eu quero garantir uma vida melhor para os meus filhos, férias em um lugar muito aprazível", nós consideramos isso como motivação intrínseca, que é uma vacina contra a depressão. A motivação que diz respeito aos meus maiores interesses, que não dependem das outras pessoas, elas não sofrem comparação e geram muito menos desgaste. A grande pergunta que nós temos que fazer diante dos nossos objetivos é essa: "eu estou querendo isso para me comparar, para ser pior ou melhor, normalmente melhor, do que os outros ou porque eu quero alcançar metas importantes na minha vida?" Essa última é a chave. Entrevistadora: Olha, doutor, eu digo que quando nós estamos em uma entrevista em que só temos coisas positivas e muita informação para passar aqui para os nossos ouvintes, o tempo voa. Já são nove horas e trinta e oito minutos e, infelizmente, eu preciso encerrar esse nosso delicioso bate papo. Os nossos ouvintes estão aqui assim: "Obrigada, doutor. Obrigada, doutor, vou refletir". É sinal que tem muita gente precisando respirar e parar um pouco, parar e refletir sobre a importância, quão bonita é nossa vida e, às vezes, ela passa de uma maneira muito estressada. As pessoas não sabem valorizar. Eu só posso te agradecer e, com certeza, você será meu convidado para continuarmos esse assunto que é tão importante. Cyro Masci: Será um prazer. Um ótimo dia para todos e muita saúde.

#fadiga #cansaço #fadigacrônica #cyromasci

0 visualização
Logo.png