Depressão pode ser desencadeada pela pandemia da Covid-19

Os dados preliminares de pesquisa indicam que, após o diagnóstico da Covid 19, um terço dos pacientes, chegando a 46%, se ficaram em UTI, desenvolvem transtornos neurológicos ou psiquiátricos, conforme um recente artigo do jornal The Lancet Psychiatry.


Já uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz com 45 mil brasileiros revelou que menos de 40% das pessoas com depressão tiveram tratamento adequado no ano anterior e apenas 15,4% delas afirmaram que receberam o tratamento indicado. Procurando por escapes, o estudo citado também mostrou que 34% dos fumantes aumentaram o consumo diário do cigarro e 17,6% das pessoas aumentaram o consumo de álcool.



Que a pandemia mudou a rotina do dia a dia e, para muitos, gerou situações de grande aflição e sofrimento, não há dúvida. O que pode gerar dificuldade é saber se os sentimentos de tristeza gerados pela pandemia exigem tratamento ou se é apenas uma fase da vida.


É importante separar o transtorno depressivo da tristeza, ou melancolia eventual, que a maioria das pessoas pode experimentar como consequência da nossa situação atual. Por exemplo, a tristeza que um indivíduo sente ao perder uma pessoa querida não é uma depressão. Se, no entanto, essa tristeza impedir o funcionamento normal no dia a dia ou então estiver causando um grande sofrimento, a coisa muda de figura.


Como saber se a depressão está presente?


Em geral, a depressão afeta o humor. Na maioria das vezes (mas não sempre) a sensação inicial é de tristeza, melancolia, preocupação e desesperança. As funções corporais também costumam ficar comprometidas. São comuns sintomas de perda de apetite e de peso (embora em algumas pessoas ocorra exatamente o contrário). Transtornos no sono também podem aparecer, seja tendo dificuldade em adormecer, em manter o sono ou ainda por acordar mais cedo que o habitual. Alguns poucos depressivos experimentam o inverso, um aumento nas horas de sono.


A energia, o interesse por sexo, a vontade e a iniciativa em realizar coisas diminuem ou desaparecem. A fadiga é muito comum, e podem aparecer sintomas como boca seca, náusea e constipação (ou às vezes diarreia). Algumas vezes aparecem dores misteriosas que parecem ir de um lugar para outro e desaparecem quando a depressão melhora.


Já as mudanças no comportamento podem acontecer para o lado da apatia ou agitação. Muitas pessoas também evitam contatos sociais, mergulhando no isolamento. Alguns conseguem trabalhar normalmente, mas se sentem terrivelmente deprimidas, outras sentem enorme dificuldade em realizar as atividades diárias, como tomar banho, vestir-se, comer ou trabalhar.


Causas da depressão


A depressão não tem uma única causa, no geral é uma combinação de diversos fatores. Esses fatores incluem os psicológicos (como uma intensa reação à perda de uma pessoa querida), fatores do ambiente (como ter que enfrentar uma situação de convívio com uma pessoa muito doente), fatores genéticos (que é a predisposição orgânica que cada pessoa traz ao nascer), fatores hormonais (como o baixo funcionamento da tireoide ou desbalanceamento de outros hormônios, por exemplo), e também fatores bioquímicos cerebrais, nos transmissores químicos do cérebro.


Portanto, a depressão clínica é uma doença, como qualquer outra, e ninguém fica deprimido como uma punição por ter feito “algo de ruim” — uma interpretação errada bastante comum em quem está deprimido. Não é um defeito de caráter ou de personalidade. Não é sinal de fraqueza. Não é falta de força de vontade para superar suas dificuldades.


O pior inimigo da Saúde Mental é o preconceito. Na presença de sintomas depressivos, é sinal de lucidez e sabedoria procurar ajuda para esclarecer o diagnóstico correto e estabelecer a terapêutica adequada.


Texto de Cyro Masci publicado originalmente em Infovital


53 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo